ENGENHARIA CIVIL E A TECNOLOGIA BIM

Durante muitos anos, os projetos de obras de engenharia foram feitos unicamente em papel, até que surgiu a ferramenta chamada CAD (Computer Aided Design) ou Desenho Assistido por Computador, permitindo o uso do computador para desenhar as linhas e figuras geométricas de um projeto.

O CAD, embora tenha representado uma importante evolução e desfrutado de grande prestígio, tinha suas limitações, sobretudo em projetos mais complexos. Na busca de um mecanismo mais eficaz para projetos de maior complexidade, chegou-se a um modelo tridimensional. Surge, então, a tecnologia BIM como novo paradigma.

O QUE É O BIM

É uma sigla que significa Building Information Modeling ou Modelagem da Informação da Construção. Consiste em um conjunto de tecnologias e processos integrados, que permite a criação, utilização e atualização de modelos digitais de uma construção, possibilitando ao projetista visualizar o empreendimento em um ambiente virtual antes da sua execução.

VANTAGENS DO USO DO BIM

  • prever erros de projeto e na execução antes do início das obras e sua mobilização;
  • gerenciamento do projeto, otimização dos serviços e prazos; 
  • redução de riscos, dos custos da obra e de retrabalhos;
  • diminuição de resíduos sólidos e desperdícios de materiais.

BIM NO BRASIL

No Brasil, o incentivo do uso dessa tecnologia em nível nacional foi introduzido, em 2018, pelo Decreto Federal n° 9.377 alterado pelo Decreto Federal n° 9.983/19 criando a Estratégia Nacional de Disseminação do BIM (Estratégia BIM BR) com os objetivos de  difundir o BIM e os seus benefícios; coordenar a estruturação do setor público para a adoção do BIM; criar condições favoráveis para o investimento, público e privado, em BIM; estimular a capacitação em BIM; propor atos normativos que estabeleçam parâmetros para as compras e as contratações públicas com uso do BIM; entre outros.

O cronograma de implementação da Estratégia BIM, estabelecido pelo Governo Federal para ser desenvolvido em três fases até 2028, começou, efetivamente, em janeiro de 2021, após a edição do Decreto n° 10.306/2020, o chamado Decreto BIM 2020, que instituiu seu uso na execução direta ou indireta de obras e serviços de engenharia realizadas pelos órgãos e pelas entidades da administração pública federal.

1ª Fase – a partir 1º de janeiro de 2021: passou a ser utilizado no desenvolvimento de projetos de arquitetura e engenharia. 

2ª Fase – a partir de 1º de janeiro de 2024: além dos projetos, deverá ser utilizado na orçamentação, no planejamento e no controle da execução de obras.

3ª Fase – a partir de 1º janeiro de 2028: além do uso nas fases anteriores, deverá ser utilizado no gerenciamento e na manutenção do empreendimento após a sua construção.

Reforçando tal estratégia, a Lei n° 14.133/2021, nova Lei de Licitações prevê no art. 19, inciso V, que os órgãos da Administração deverão promover a adoção gradativa de tecnologias e processos integrados que permitam a criação, utilização e atualização de modelos digitais de obras e serviços de engenharia.

O §3º do mesmo artigo estabelece que, nas licitações de obras e serviços de engenharia e arquitetura, sempre que adequada ao objeto da licitação, será preferencialmente adotada a Modelagem da Informação da Construção (Building Information Modeling – BIM), ou de tecnologias e processos integrados similares ou mais avançados que venham a substituí-la.

Vê-se, portanto, que a legislação recente das licitações aponta para a engenharia de forma bastante significativa, inclusive no que se refere ao desenvolvimento de tecnologias. Isso significa uma coisa: as empresas de engenharia têm, no mercado público de contratações, um grande impulsionamento para diversificar suas fontes de ganhos.

Por Antônio Calhau, professor, procurador no município de Itabuna-BA e diretor de mentorados na LicitaMundo Licitações e Negócios.

DESAFIOS DA CONTRATAÇÃO “BIMnada”​

Um arquiteto recebe a ligação de um antigo amigo pedindo que o ajude com o projeto da sua casa de campo: “um desenho que oriente o meu pedreiro”. Por mais experiência, dedicação e inteligência que estivessem incorporados ao produto entregue, nem mesmo acompanhado de um bom vinho, o arquiteto teria seu trabalho valorizado por ser, aos olhos do cliente-amigo, apenas um desenho num papel. Guardadas as proporções da história, que está longe de ser uma fábula, vivemos um momento de grande desvalorização dos produtos gerados pelo setor de Arquitetura e Engenharia Consultiva (AEC), tendo como resultado mais imediato a cultura da aquisição de serviços de consultoria como se fossem comuns ou até mesmo “bens de consumo de prateleira”. Neste contexto, como ficará o setor de AEC em relação à evolução dos produtos gerados a partir do conceito BIM? A quantidade de informação e inteligência aplicadas no “desenho da casa de campo” será devidamente valorizada desde a composição para a contratação dos serviços?

Atualmente os serviços de AEC, mais especificamente os relacionados a projetos, sejam estes de edificação ou infraestrutura, são precificados a partir de uma composição de custos baseada em diversos insumos, cujo principal componente é a relação homem-hora (H/h). As unidades de aferição destes serviços variam, mas a base de sua composição mais relevante considera quanto tempo um determinado profissional (ou conjunto deles) em determinado nível de experiência (sênior, pleno e júnior) é mobilizado para desenvolver determinado projeto, que pode ser aferido e mensurado por prancha/formato, extensão, área etc.

Geralmente desenvolvido a partir de um caderno de encargos que define e delimita o escopo que se espera estar contemplado nestes projetos e em cada uma das tradicionais etapas de desenvolvimento (conceitual, anteprojeto, projeto básico e executivo), esta metodologia de medição do valor dos serviços de AEC gera sistematicamente questionamentos. O principal deles refere-se ao fato de se mostrar muitas vezes subjetiva à avaliação do real conteúdo apurado nos produtos desenvolvidos com o menor custo possível versus a expectativa do contratante que nem sempre atualiza esta relação escopo/composição de custo ou compreende quanto houve de produção técnica antes do produto final mensurado pelo quantitativo de conceito objetivo para efeito da medição.

Para exemplificar tal situação, podemos imaginar o pagamento de um projeto de estruturas através de medição por formato A1. A prancha do projeto, ainda em nível básico, por exemplo, já apresenta a solução estrutural e toda expertise do profissional envolvido, mas sua representação gráfica – ainda sem detalhes de execução e na escala determinada no contrato – talvez reduza o valor do serviço de maneira desproporcional ao esforço técnico efetivamente agregado. Da mesma forma, se quisermos apurar o valor da prancha A1 de um projeto arquitetônico ainda na etapa conceitual, possivelmente teremos um dilema estabelecido para a composição equilibrada deste serviço, já que toda capacidade técnica do profissional envolvido teria que estar graficamente representada, fato que sabidamente não se concretiza ao termos uma medição burocrática do que de fato temos de produto impresso. Esta sistemática reforça equivocadamente o conceito de que o projeto é “apenas um desenho”, como exposto anteriormente.

Com a adoção cada vez mais efetiva da plataforma BIM para a cadeia produtiva de AEC, assumindo que temos uma “tendência torta” no entendimento da valorização dos serviços deste setor desenvolvidos a partir da lógica da medição objetiva dos custos relacionados à produção técnica sem a devida mensuração da inteligência agregada à cada solução adotada, há uma grande possibilidade de reforçarmos esta distorção e desvalorizarmos ainda mais os produtos desenvolvidos.

No conceito, digamos inovador, da plataforma BIM em agregar ao desenvolvimento do projeto, desde sua fase inicial, uma compatibilização e informações que permite ao contratante uma infinidade de soluções, antecipação de problemas, geração de dados, economicidade nas etapas de projeto e obra, assertividade de orçamentos e prazos, redução de perdas, controle da operação e manutenção na pós-ocupação etc., deveríamos imaginar uma valorização natural dos produtos gerados. Mas se não houver uma compreensão de que agora o “simples projeto ou desenho no papel” desenvolvido na antiga prancheta, que virou o tradicional CAD, não é apenas um “simples modelo 3D ou maquete virtual” desenvolvido nos softwares BIM apenas para encantar visualmente o cliente, estamos na direção errada e muito possivelmente a desvalorização dos produtos gerados pela AEC, bem como de seus profissionais, será inevitável.

O ganho de escala esperado pela produção nas novas plataformas gera uma relação H/h para um mesmo produto inversamente proporcional ao nível de informação e assertividade agregado. Se nossa referência para a composição de preços destes serviços estiver atrelada a esta proporção e as unidades de medição dos serviços forem burocraticamente engessadas em formatos e metragens quantificados sem a compreensão da tecnologia empregada no modelo que será gerado, estaremos sob o risco de termos melhores entregáveis de AEC a menores preços.

Neste sentido, entendo ser fundamental uma mudança conceitual na origem do paradigma de orçamento dos serviços de AEC. Os produtos e serviços deste setor são objetivamente de caráter técnico e naturalmente dependem de uma expertise, capacitação e inteligência que agregados geram o resultado que deveria ter mensuração de valor diretamente relacionada ao que gera de valorização global de determinado empreendimento em todas as suas fases: do estudo de concepção à O&M.

Abre-se, portanto, uma discussão para o setor de AEC junto aos seus contratantes/clientes. Atualmente não entendo haver uma solução pronta, mas se houver um alinhamento conceitual estaremos no “caminho reto” para a valorização da cadeia produtiva e dos nossos profissionais. Não fazemos desenhos e maquetes. Projetamos soluções, que precisam estar materializadas graficamente para que sejam compreendidas e executadas, e este é o trabalho técnico que deve ser precificado. 

Por Rafael Decina Arantes, Arquiteto e Urbanista, Gerente Regional Cobrape, Presidente Sinaenco/MG, VP de Articulação CBIM/MG, Conselheiro Estadual CAU/MG

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